Estudo aponta a sobrevalorização do real como um dos entraves para a recuperação da indústria de transformação

A escalada do câmbio e os períodos de desalinhamento com a realidade da moeda brasileira continuam a causar danos à indústria de transformação no Brasil. A conclusão é de estudo sobre o impacto da cotação do câmbio no setor, realizado por dois especialistas da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

O levantamento, elaborado por Antonio Carlos Teixeira Álvares, presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Estamparia e Metais (Siniem), e o economista Guilherme Caldo Moreira, gerente do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon), atesta, a partir de indicadores históricos, os efeitos negativos da sobrevalorização do real para o segmento. Embasados na pesquisa, eles defendem a adoção de uma taxa de câmbio de equilíbrio como primeiro passo para a retomada do crescimento econômico no país.

“Esse momento de transição política é estratégico para a definição de uma ação governamental clara nesse campo, que favoreça a recuperação do setor produtivo e, em particular, da indústria de transformação, um dos pilares da economia para a retomada do crescimento”, afirma o coautor do estudo Antonio Carlos Teixeira Álvares.

A análise adotou como ponto de partida a criação do real, que levou a uma indexação diária da economia ao dólar. Antes de se consolidar como moeda corrente no Brasil, o real foi ancorado na URV (Unidade Real de Valor), em 1º de março de 1994. A URV valia na época 647,50 cruzeiros reais (cotação do dólar norte-americano no dia anterior), e deu início a uma evolução diária espelhada no câmbio. Ao entrar oficialmente em circulação, em 1º de julho de 1994, com a URV de 2.750,00 (cotação do dólar em 30 de junho), os valores expressos em cruzeiros reais foram convertidos na nova moeda, na paridade de R$ 1,00 para US$ 1,00.

Os indicadores do estudo são analisados a partir da adoção desse mecanismo engenhoso, que estabeleceu uma espécie de dolarização total dos preços, sem exigir a substituição da moeda. Assim, a data de 30 de junho de 1994 foi definida como o marco referencial para o cálculo de uma hipotética taxa de câmbio de equilíbrio. As diferenças entre o indicador oficial e esse referencial foram analisadas até 31 de julho de 2016, considerando a inflação brasileira e a norte-americana no período. Como resultado, foi possível mensurar o impacto do câmbio no setor produtivo ao longo dessas duas décadas, e detectar a importância desse fator no momento em que se busca um novo direcionamento para a política econômica no Brasil.

Segundo o estudo, em 31 de julho de 2016, a cotação do dólar em equilíbrio com a da data de criação do real apontava R$ 3,40 por dólar americano, indicando uma sensível contraposição em relação à cotação efetiva.

Quando confrontada com a participação da indústria de transformação e o PIB, a evolução histórica do câmbio mostra um desalinhamento, ao longo de 11 trimestres, entre a valorização do real e a  queda de participação do setor industrial no PIB brasileiro.

Fica clara a conexão entre esses fatores. Sempre que ocorre a desvalorização da moeda brasileira, aumenta a participação do setor industrial na geração de riqueza no país.

Assim, a conclusão do estudo serve de alerta às autoridades no sentido de conscientizar para as armadilhas da sobrevalorização do real, e os consequentes efeitos dessa política no setor produtivo. “O crescimento econômico passa, inexoravelmente, pela recuperação da indústria. É necessário, portanto, assegurar as condições para que ela possa reassumir seu papel histórico nesse processo”, argumenta Teixeira.

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