Moradores do Burity escrevem o 13° capítulo do Mais Vida nos Morros

O décimo terceiro capítulo na história dos morros do Recife foi escrito ao longo dos últimos cinco meses pelos moradores que se engajaram e colocaram a mão na massa para transformar o lugar em que vivem através da arte urbana, da conscientização ambiental e principalmente da mudança de comportamento.

Na semana passada, a Vila Burity, no bairro da Macaxeira, celebrou o resultado dessas mudanças em mais uma edição do programa Mais Vida nos Morros, da Prefeitura do Recife, realizado por meio da Secretaria Executiva de Inovação Urbana, com o apoio das Tintas Coral.

O capítulo Vila Burity, que em seu nome já carrega o significado indígena de árvore da vida, foi concluído com 450 famílias diretamente beneficiadas e viu enraizar em suas ruas, becos e escadarias várias intervenções nas quais o morador foi o protagonista. Elementos lúdicos para as crianças, inclusive para a primeira infância, hortas comunitárias, jardins, jardineiras, pintura de casas e novos mobiliários trouxeram mais cor, alegria e beleza para casas, calçadas, praças e também para o campinho da comunidade. Pontos críticos de lixo foram eliminados e transformados em áreas de convívio e lazer.

Para aproveitar o potencial dos espaços públicos e uma das vistas mais bonitas da cidade, nasceram 10 novas pracinhas e 5 mirantes cheios de vida e cor que agora podem ser desfrutados por qualquer cidadão. Não foi só a comunidade que saiu ganhando, mas todo o Recife. Do Açude de Apipucos é possível observar as casas coloridas e os grandes murais de arte que chegam a ter três metros de altura e extrapolam a vista para outros pontos do bairro e da cidade, como o Parque da Macaxeira, Campo da União, Alto do Mandu, Alto do Santa Isabel e a Avenida Norte.

Dados coletados na fase de cadastramento dos moradores e comparados no encerramento das atividades na Vila Burity apontam que, se antes 11% das crianças brincavam na rua, hoje 75% passou a brincar mais. Como também é crescente a frequência de moradores convivendo com seus vizinhos nos espaços públicos que antes era de 11%, e agora passou a ser 77%. O sentimento negativo pela comunidade saiu de 59% para apenas 3%. “Quando a criança passa a brincar na frente de casa, além de poder interagir com esse espaço público todo transformado que também está promovendo o desenvolvimento infantil, a gente faz com que as famílias passem a acompanhar e vivenciar a sua comunidade. E quando todo mundo passa a ocupar a comunidade, a sua cidade, ela fica mais segura”, acrescenta o secretário de Inovação Urbana, Tullio Ponzi.

Apoiadora do programa Mais Vida nos Morros, a Coral esteve presente nessa etapa com mais de 9.000 litros de tintas que foram essenciais na pintura de casas, calçadas, praças, mirantes, campinho e elementos de primeira infância. “A cada etapa entregue desse projeto nos sentimos mais honrados e realizados em fazer parte dessa transformação nas comunidades da Grande Recife. A iniciativa faz parte do nosso Movimento Tudo de Cor, da Coral, que há 10 anos inspira moradores e voluntários a renovar espaços e levar autoestima a adultos, jovens e crianças por meio da cor”, afirma Elaine Poço, diretora de Sustentabilidade da AkzoNobel para América Latina.

Transformação local – Caminhando pelas ruas é possível se deparar com várias brincadeiras lúdicas e intervenções artísticas que estimulam o desenvolvimento e a criatividade das crianças. Jogos como amarelinha, pista de salto à distância e muitos outros, invadiram paredes e calçadas próximo de residências onde moram crianças, para que os seus familiares pudessem acompanha-las e também desfrutar dos espaços públicos estimulados pela cor. O campinho do Gogó, que vibra como uma espécie de coração na comunidade, passou por uma revitalização de alambrado, areia, caixa de drenagem e pintura após várias conversas com os moradores e se tornou o ponto de partida para o caminho da primeira infância que percorre a comunidade. Na Rua Carmen, por exemplo, uma passarela brincante foi projetada para divertir o caminho que faz parte do trajeto de várias crianças até chegarem na Escola Municipal Deputado Fernando Sampaio, onde também aconteceu uma transformação na instituição de ensino que recebe todos os dias 150 crianças.

No local onde foi implantada a horta comunitária e as composteiras coletivas, que são fruto da solução criativa que os próprios moradores encontraram para dar um destino útil ao acúmulo das folhas que caem das árvores, o artista Max Motta exaltou os muros com grandes frutas e hortaliças que despertam nas crianças o interesse pelos nomes, cheiros e sabores. Já no mirante da rua Cristina Tavares, Max apostou na escuta das crianças que se veem representadas na figura de um menino sonhador, inspirada na participação ativa das crianças que acompanharam a transformação do novo espaço de lazer durante todo o processo. No Mirante Pôr do Sol foi muito forte a presença de crianças, adultos e idosos envolvidos com as transformações. Hoje o lugar se tornou um ponto de referência para contemplar um dos fenômenos mais bonitos da natureza que deu nome ao local.

Na esquina da Rua Bertioga, uma vaga de carro deu origem a um parklet, atendendo à necessidade dos cuidadores de crianças e idosos de terem um espaço confortável para descansar. Já na Subida dos Três Postes, o lugar que hoje é conhecido como Nossa Pracinha – nome escolhido pelos moradores – era um ponto crítico de lixo que os moradores não sabiam como resolver. Eles solicitaram orientação e a equipe do Mais Vida nos Morros esteve presente em todas as etapas, desde quando eles bateram de porta em porta chamando os vizinhos e explicando as consequências de jogar o lixo no lugar errado, até a transformação total da área. Os moradores elaboraram juntos um projeto detalhado de como gostariam que a pracinha ficasse, inclusive com as cores que seriam utilizadas. A pintura e o plantio foram realizados com o engajamento deles, que cuidam da pracinha todos os dias. “Gente que nem se conhecia passou a conversar e frequentar o local que antes ficava vazio à noite. Hoje as mães trazem seus filhos para brincar e ficam conversando sentadas no banquinho”, conta a moradora Laura Miranda, que junto com Marcony Candido deram o ponta pé inicial nessa transformação.

O projeto – Mais Vida nos Morros teve início em 2016 e beneficiou diretamente mais de 15 mil recifenses, moradores do Alto do Maracanã, Córrego do Jenipapo, Mangabeira/Alto José do Pinho, Ibura/Três Carneiros, Alto Santa Isabel, Morro da Conceição, Sítio São Brás, Beberibe, Vasco da Gama e Burity/Macaxeira. O Mais Vida nos Morros é uma política pública de cidadania e desenvolvimento sustentável para os morros do Recife e vem se destacando internacionalmente com reconhecimento da ONU-Habitat, da Child in The City e da Bernard Van Leer Foundation.