Crise, uma oportunidade de crescimento

Apesar do momento conturbado pelo qual o Brasil atravessa politica e economicamente, representante das fabricantes de tintas acreditam que este é o momento certo para cresce

A crise política e econômica no Brasil é uma realidade e ninguém dúvida. Porém, alguns setores da sociedade são mais afetados. Nosso desafio é descobrir como os fabricantes de tintas e vernizes estão neste cenário. E não é uma tarefa fácil encontrar os números do setor.

Apenas o Sindicato da Indústria de Tintas e Vernizes do Estado de São Paulo (Sitivesp) concentra os resultados do acompanhamento e análise das informações fornecidas pelo Sistema Alice, da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, Comércio e Turismo.

A importação e a exportação de tintas e vernizes fecharam o primeiro semestre de 2015 em queda. Foram importados US$ 162,753 milhões, o que projeta para o ano de 2015 US$ 325,506 milhões, volume 14% menor aos US$ 380,706 milhões de 2014. Nas exportações, os volumes foram US$ 86,023 milhões, o que projeta para o ano de 2015 US$ 172,046 milhões, volume 9% inferior aos US$ 189,375 milhões de 2014

Em relação a toneladas importadas, o primeiro semestre de 2015 fechou com 30.736 toneladas, o que projeta para o ano 61.472 toneladas, contra 65.903 toneladas de 2014, redução de quase 7%, e com queda do preço médio de US$ 5,78 para US$ 5,30.

Em relação a toneladas, foram exportadas, no primeiro semestre de 2015, 26.449 toneladas, o que projeta para o ano 52.898 toneladas, contra 58.440 toneladas de 2014, queda de mais 9%, e com leve aumento do preço médio de US$ 3,24 para US$ 3,25. Em relação à balança comercial do Mercosul, foram exportados, no primeiro semestre de 2015, 14.712 toneladas e importados 1.957 toneladas.

Dilson Ferreira, presidente executivo da Associação Brasileira de Fabricantes de Tintas (Abrafati) lembra que exportação e importação de tintas são pouco relevantes para o setor, representando menos de 5% de seu faturamento. “A queda nas importações é esperada em momentos como o atual, em que, além da retração da economia, houve desvalorização da moeda. Para as exportações, pode-se esperar um aumento pequeno, pois dificuldades no mercado interno levam algumas empresas a buscar oportunidades no exterior, especialmente em países da América Latina, África e Oriente Médio. É preciso destacar que as exportações de tintas com maior valor agregado têm mais potencial, enquanto as tintas imobiliárias enfrentam uma limitação, por causa do alto custo do frete em relação ao valor do produto. É possível e desejável aumentar consideravelmente as exportações. Para isso, é necessário que as tintas brasileiras sejam mais competitivas no exterior – o que envolve medidas para reduzir o Custo Brasil”, acredita.

Para Filipe Colombo, diretor presidente da Tintas Anjo, o desaceleramento da economia, gerado pelo endividamento das famílias brasileiras, explica parte de uma importação menor, já que o consumo interno diminuiu. “Aliada a alta do dólar que tornou o produto importado menos atrativo, derrubando assim as importações. O cenário econômico agravou a situação das importações, pois a queda do consumo de tintas está na faixa de 20%”. Ele ainda completou que, com relação às exportações, “a Anjo Tintas cresce fortemente, pois focou na internacionalização nos últimos 12 meses, aproveitando o crescimento da economia de alguns países vizinhos”, orgulha-se.

Claudio Oliveira, diretor comercial, também passa por um cenário diferente. “Apesar de ter pequena participação em nosso volume total, as exportações da Eucatex apresentaram crescimento em 2015. Para nós, crescer nos mercados da América Latina, Caribe e África é uma decisão estratégica e significa uma alternativa importante para continuarmos nossa trajetória de crescimento neste ano desafiador.

Já Juarez Munhoz Correa, diretor de vendas da Skylack, tem outra explicação para a queda nas importações. De acordo com ele, deve-se ao fato de que algumas marcas que atuam no Brasil e não tem fábrica aqui, traziam todos seus produtos de fora. E, nestes últimos 2 anos, diminuíram suas participações no mercado ou até deixaram de atuar no País. “Aliado a isso também muitos produtos que vem de fora, com o tempo por problemas de custos, passam a ser produzidos no Brasil. Quanto às exportações, vejo que os países, principalmente da América do Sul, que têm enfrentado problemas nas suas economias, por isso compram menos do Brasil”, acredita.

Intertítulo: Empregos também diminuem

O Sitivesp divulga também a pesquisa do nível de emprego, que indica a evolução das contratações e demissões de profissionais praticadas pelas indústrias do setor. O levantamento é feito pelo Sindicato e consolidado mensalmente, servindo de base para pesquisas mais amplas como a da Fiesp, que envolve todo o segmento da indústria paulista.

O nível de emprego da indústria de tintas e vernizes, fechou o mês de julho, registrando queda pelo quarto mês seguido. Na variação mensal, a redução foi de 0,54% em relação ao mês de junho de 2015. Da base de 22 empresas, pesquisadas pelo Departamento Econômico do Sitivesp, 6 empresas apresentaram redução, 14 ficaram estáveis e apenas 2 apresentaram crescimento. Na variação anual, o montante acumulado ficou negativo em 2,73% em relação a igual mês, de 2014. Já em relação a data base, novembro de 2014, a redução é 2,97% nessas 22 empresas pesquisadas, ou em termos absolutos 282 empregos.

O diretor presidente da Tintas Anjo acredita que parte deve-se por causa de investimento em modernização do parque fabril das indústrias, mas com certeza o principal fator foi a desaceleração do consumo brasileiro. “A economia brasileira nos últimos anos foi sustentada por um modelo econômico que incentivava fortemente o consumo, porém, este modelo possui prazo de validade, e quando a população se endivida demais por causa do consumo excessivo, o crédito fica limitado e o consumo cai rapidamente. Gerando retração na economia e queda na produção industrial e diretamente no nível de empregabilidade.”

Para o presidente da Abrafati, em momentos de retração nas vendas, as empresas precisam reduzir seus custos e isso inclui, algumas vezes, corte de pessoal. “Mas, as indústrias de tintas têm investido prioritariamente no aumento da produtividade, ou seja, produzir mais e melhor com a mesma quantidade de pessoas. Esse é o caminho que consideramos melhor. Por isso, de maneira geral, não há uma diminuição expressiva nos quadros das empresas”, diz.

O diretor comercial da Eucatex confirma a teoria de Dilson Ferreira. “Na Eucatex não houve nenhuma redução no quadro de pessoal. Além dos desafios deste ano, temos que levar em consideração a sazonalidade do mercado que sempre apresenta números superiores no segundo semestre. Pela nossa expectativa, neste ano o comportamento não deve se alterar”, espera.

O diretor comercial da Skylack segue a mesma linha de pensamento. “Sem dúvida, com o mercado brasileiro passando dificuldades na sua economia, a tendência é uma venda menor, e queda no emprego. Mas acreditamos que em momentos de crise, aja oportunidades para crescer. Skylack trabalha de forma intensa para manter e ampliar seu mercado, e com isto também sustentar seu nível de emprego.”

Intertítulo: Crise também pode ser sinônimo de oportunidade

“O momento é difícil, mas há oportunidades e muito espaço para inovar”, essa é a opinião do presidente da Abrafati. “Vejo a união de esforços de fabricantes e revendedores como essencial para enfrentar esse momento, usando estratégias coordenadas e inteligentes para convencer o consumidor a comprar os nossos produtos, ressaltando sempre os benefícios trazidos pelas tintas e pela pintura. O investimento em promoção e propaganda é uma das bases desse trabalho conjunto, juntamente com a oferta de produtos de alta qualidade, inovadores e ambientalmente corretos e com um atendimento excelente nas lojas (incluindo serviços que agregam valor, como a orientação técnica e a recomendação de pintores)”, completou.

Juarez Munhoz Correa acredita que deve agir com racionalidade, sendo realista, portanto nem otimista demais e nem pessimista. “Penso que no segundo semestre podemos ter um começo de melhora. Ações junto ao governo sempre ajudam, principalmente nos pontos de desoneração dos encargos trabalhistas, como também em possíveis reduções de impostos.”

Filipe Colombo corrobora do raciocínio do colega. “O mercado precisa ser otimista, voltar a reinvestir e se preparar para uma retomada da economia. O que não podemos fazer é ficar parados esperando a economia reagir. Ações para que o governo invista nas indústrias, pois somente com uma indústria forte é que teremos um país forte.”

Claudio Oliveira espera que as ações do setor como um todo sejam tomadas no âmbito da Abrafati e da Abramat que defende os interesses setoriais junto aos órgãos da administração pública e da sociedade. “Em um momento como este, temos que intensificar esta atuação e buscar oportunidades comuns ao setor de tintas e material de construção para minimizar as reduções de demanda. Ações que favoreçam a concorrência leal, reduzindo a atuação de empresas informais e de produtos que não atendem às normas brasileiras.”

Sibélia Vito Moreno, analista de marketing da Sayerlack. “A união sempre ajuda, desde que seja para pleitear e conquistar junto ao governo diminuição de carga tributária, dos encargos trabalhistas, de melhoria na infraestrutura, o que traria mais competitividade para a indústria brasileira”. Ela ainda completa. “Neste momento somente um ajuste estrutural pode, a médio e longo prazo, recuperar a atividade econômica. Infelizmente toda base econômica foi desestruturada e agora será necessário um longo e árduo trabalho para ajustar o País. Estamos diariamente buscando novos caminhos como inovação e maior eficiência, para com isto, conquistar novos clientes e mercados.”

Alavancar o consumo, esse é o lema

De acordo com o presidente da Abrafati, diversos tipos de ações junto ao governo podem contribuir para impulsionar a venda de tintas. “Há muitos anos a cadeia de construção – com a participação ativa da indústria de tintas – tem trabalhado com o governo para priorizar o investimento na construção civil, em projetos com forte impacto econômico e social, como os de habitação popular e infraestrutura. É fundamental expandir esse trabalho, que traz ótimos resultados para o País e repercute muito positivamente nas vendas de tintas. Da mesma forma, ações voltadas para o aumento da competitividade dos nossos produtos devem ter continuidade, envolvendo a desoneração tributária, a eliminação de entraves burocráticos, a redução do Custo Brasil e outros”, afirma.

Ele ainda destaca outra importante vertente nesse trabalho conjunto, que é o ordenamento do mercado, no qual já avançamos muito a partir da implantação do Programa Setorial da Qualidade – Tintas Imobiliárias. “É preciso agir para que tintas fabricadas fora da conformidade técnica sejam retiradas do mercado, pois a imagem de todas as tintas é prejudicada por produtos que não cumprem a função para a qual foram comprados.”

O representante da Eucatex concorda que é um ano bastante desafiador. “Estamos em um momento de economia desacelerando. Então, nós vamos continuar intensificando nosso programa de abertura de Centros de Distribuições pelo Brasil para ficarmos mais perto dos clientes e vamos manter nossos investimentos nos pontos de vendas para estarmos mais próximos tanto dos formadores de opinião quanto do consumidor. Esta é nossa forma de encarar o desafio e continuar crescendo nossa participação de mercado.”

Ele ainda completa que ao lembrar que a empresa manteve a estratégia de desenvolvimento e lançamento de novos produtos. “Nossas estratégias de divulgação estão muito focadas no ponto de venda; na positivação do ponto de venda. O nosso principal foco são investimentos nos pontos de venda e ações focadas nos lojistas e nos pintores, ou seja, fidelizações, palestras, treinamentos. Nosso foco é o lojista. Nós falamos com o consumidor através de divulgações, ações institucionais, fazemos muitas campanhas cooperadas com clientes em que TV, rádios e mídia impressa. Além disso, também temos as redes sociais que são focadas para o consumidor.”

Para o diretor comercial da Skylack, o momento seria de estabilizar a economia, diminuir a inflação e juros. “Termos novamente empregabilidade, para que as pessoas voltem a consumir normalmente. A Skylack tem aplicado uma política comercial voltada às necessidades dos seus clientes, fazendo com que eles não percam o mercado conquistado, e sigam ampliando suas vendas. Evidente que os aumentos de matérias-primas neste ano, tem dificultado as ações como um todo, mas sempre temos que ser criativos para incentivar o consumo”, revela.

Dilson Ferreira lembra que o Brasil tem mais de 60 milhões de domicílios e boa parte deles precisa de melhorias, que, em geral, envolvem a pintura. Muitos sequer chegaram a ser pintados, tendo blocos e reboco aparentes. Existe, portanto, um enorme potencial para a venda de tintas. “Precisamos agir para colocar as tintas e a pintura no topo da lista de prioridades do consumidor, que, como indicam diversas pesquisas, quer reformar e melhorar seu imóvel, da mesma forma que deseja manter seu veículo bem cuidado. As ações mencionadas acima contribuem para isso, mas é preciso mais para que o consumo per capita de tintas alcance níveis similares aos de países desenvolvidos. A renda média do brasileiro precisará voltar a subir. Esse é um aspecto em que não temos como influenciar diretamente, mas esperamos que a retomada do crescimento econômico ocorra logo e traga benefícios nessa área. Entre as ações que a indústria pode adotar incluem-se oferecer produtos mais amigáveis em termos de aplicação e ampliar a oferta de profissionais capacitados para a pintura. Já estamos fazendo isso – um exemplo é o Programa Pintor Profissional – e é necessário fazer mais. Com mais facilidade para encontrar um pintor, as pessoas tendem a pintar seus imóveis com mais frequência, o que representará um forte estímulo às vendas.”

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